
O conto que se segue narra um episódio no mínimo estranho, pelo grupo de personagens conhecidas, que pertencentes a vários contos aqui se cruzam inexplicavelmente. Tão invulgar é o caso e ainda mais o são as peripécias que o caracterizam que decidi aqui registá-lo.
Dado dia estava Pippi das Meias Altas mais calma do que o costume, quando lhe chega por correio electrónico – que a moça já aderiu as modernices - uma intimidação formal para se apresentar na Terra do Nunca no dia X, como era seu dever. Pippi cumpriu sem qualquer hesitação ao chamado.
Chegado o dia, vestiu-se a rigor para aquele local e lá foi ela responder ao apelo. Salta-lhe ao caminho uma bruxa má, feia e gorda que só sorri quando pensa estar a magoar os outros. Esta personagem também não pertence a Terra do Nunca, mas quis o destino que aqui ficasse vinculada, ainda que não tenha perfil para ser considerada habitante exímio daquela terra. Ainda antes de conduzir a Pippi ao Capitão Gancho, com quem tinha hora marcada, vira-se a malvada da bruxa para a Pippi, que entretanto tinha ido confraternizar com outras personagem que por ali andavam, e do alto da sua verruga disse em tom irónico: embora seja a ultima vez que por aqui passas, fica sabendo que apesar de não teres querido comer a minha maca sempre vais provar do meu veneno. E para que saibas quem manda aqui neste micro-reino, levas um selo de infidelis na testa como prova do meu poder. E mesmo que não concordes é este o meu ultimo veredicto, que eu sou mais alta que tu!! Os seus olhos brilharam pela glória alcançada e a Pippi ficou triste, mas ainda mais convicta que aquela não era a sua história. E como e sabido, a Pippi também não é fácil de assoar e antes do verniz lhe estalar, já este havia saltado. E assim, enfrentou-a, olhando-a nos olhos, e disse-lhe algumas das coisas que já lhe devia ter dito há mais tempo. Finalizou com um Muito Obrigada Sra. Bruxa, pelo estímulo que me deu para procurar a minha própria historia, aquela onde me enquadro melhor.
Dali não houve resposta...apenas um entristecer dos olhos que logo foi substituído por um sorriso forçado, que dificilmente enganava um sinal de bondade. Ao mesmo tempo esticou o braço com uma folha de papel, onde constavam umas linhas de elogios à Pippi e que, por conseguinte, contradiziam as palavras e actos da primeira parte da conversa. A travessa da Pippi, que nestas coisas enriça logo as trancas, ficou indignadíssima com tal descaramento e fez saber que não entendia o porquê e que não queria nada vindo da bruxa. Nada que não fosse de coração. Ficar bem no retrato só por ficar nunca foi convicção que a Pippi adoptasse. Não era agora que ia começar.
Quem não gostou da recusa foi a Bruxa – vendo a oportunidade única, de uma vez na vida poder passar por Branca de Neve, apesar da verruga, ir por agua abaixo - que em tom ameaçador fez saber que o documento já se encontrava com o Capitão Gancho. Agora já não há nada que possas fazer a não ser que o queiras enfrentar.
OK, disse a Pippi, de voz segura e tom lacónico. A bruxa largou uma gargalhada aterradora, porque rir não sabe, e ficou ainda mais horrível aos olhos da Pippi.
O Capitão Gancho lá estava numa grande sala, todo aprumado e de sorriso posto, ainda sem os dentes alinhados. Discursou palavras que voaram com o vento. As frases embalavam, mas não convenciam. Veio com a história do agradecimento final e a Pippi ai não se conteve, para grande espanto da bruxa que passou da cor pálida-malévola a vermelha-raivosa.
O Capitão Gancho tentou manter o sorriso, ainda que a custo, indignado com a atrevimento da pequena, continuando a desfazer-se em elogios.
Foi então que a Pippi finalmente entendeu que estava numa terra de cegos e que ali a bruxa e vista como uma fada media, que mal ou bem vai desenrascando. E apesar da Bruxa não ser natural daquela terra, é residente permanente e já que se tem de levar com ela, há também que a defender seja lá por o que for! - Segundo consta, é assim a tradição!
Feitas as despedidas daquele evento a Pippi ainda ficou para almoçar, porque bem feitas as contas outros habitantes há nesta terra perdida com quem vale a pena estar. Estavam lá pouco desses, mas sempre deu para pôr a conversa em dia.
Este conto é pura ficção e qualquer semelhança com outros contos não passa de uma mera coincidência.