22 de fevereiro de 2007

Uma Historia de desencantar...


O conto que se segue narra um episódio no mínimo estranho, pelo grupo de personagens conhecidas, que pertencentes a vários contos aqui se cruzam inexplicavelmente. Tão invulgar é o caso e ainda mais o são as peripécias que o caracterizam que decidi aqui registá-lo.

Dado dia estava Pippi das Meias Altas mais calma do que o costume, quando lhe chega por correio electrónico – que a moça já aderiu as modernices - uma intimidação formal para se apresentar na Terra do Nunca no dia X, como era seu dever. Pippi cumpriu sem qualquer hesitação ao chamado.

Chegado o dia, vestiu-se a rigor para aquele local e lá foi ela responder ao apelo. Salta-lhe ao caminho uma bruxa má, feia e gorda que só sorri quando pensa estar a magoar os outros. Esta personagem também não pertence a Terra do Nunca, mas quis o destino que aqui ficasse vinculada, ainda que não tenha perfil para ser considerada habitante exímio daquela terra. Ainda antes de conduzir a Pippi ao Capitão Gancho, com quem tinha hora marcada, vira-se a malvada da bruxa para a Pippi, que entretanto tinha ido confraternizar com outras personagem que por ali andavam, e do alto da sua verruga disse em tom irónico: embora seja a ultima vez que por aqui passas, fica sabendo que apesar de não teres querido comer a minha maca sempre vais provar do meu veneno. E para que saibas quem manda aqui neste micro-reino, levas um selo de infidelis na testa como prova do meu poder. E mesmo que não concordes é este o meu ultimo veredicto, que eu sou mais alta que tu!! Os seus olhos brilharam pela glória alcançada e a Pippi ficou triste, mas ainda mais convicta que aquela não era a sua história. E como e sabido, a Pippi também não é fácil de assoar e antes do verniz lhe estalar, já este havia saltado. E assim, enfrentou-a, olhando-a nos olhos, e disse-lhe algumas das coisas que já lhe devia ter dito há mais tempo. Finalizou com um Muito Obrigada Sra. Bruxa, pelo estímulo que me deu para procurar a minha própria historia, aquela onde me enquadro melhor.

Dali não houve resposta...apenas um entristecer dos olhos que logo foi substituído por um sorriso forçado, que dificilmente enganava um sinal de bondade. Ao mesmo tempo esticou o braço com uma folha de papel, onde constavam umas linhas de elogios à Pippi e que, por conseguinte, contradiziam as palavras e actos da primeira parte da conversa. A travessa da Pippi, que nestas coisas enriça logo as trancas, ficou indignadíssima com tal descaramento e fez saber que não entendia o porquê e que não queria nada vindo da bruxa. Nada que não fosse de coração. Ficar bem no retrato só por ficar nunca foi convicção que a Pippi adoptasse. Não era agora que ia começar.

Quem não gostou da recusa foi a Bruxa – vendo a oportunidade única, de uma vez na vida poder passar por Branca de Neve, apesar da verruga, ir por agua abaixo - que em tom ameaçador fez saber que o documento já se encontrava com o Capitão Gancho. Agora já não há nada que possas fazer a não ser que o queiras enfrentar.

OK, disse a Pippi, de voz segura e tom lacónico. A bruxa largou uma gargalhada aterradora, porque rir não sabe, e ficou ainda mais horrível aos olhos da Pippi.

O Capitão Gancho lá estava numa grande sala, todo aprumado e de sorriso posto, ainda sem os dentes alinhados. Discursou palavras que voaram com o vento. As frases embalavam, mas não convenciam. Veio com a história do agradecimento final e a Pippi ai não se conteve, para grande espanto da bruxa que passou da cor pálida-malévola a vermelha-raivosa.

O Capitão Gancho tentou manter o sorriso, ainda que a custo, indignado com a atrevimento da pequena, continuando a desfazer-se em elogios.

Foi então que a Pippi finalmente entendeu que estava numa terra de cegos e que ali a bruxa e vista como uma fada media, que mal ou bem vai desenrascando. E apesar da Bruxa não ser natural daquela terra, é residente permanente e já que se tem de levar com ela, há também que a defender seja lá por o que for! - Segundo consta, é assim a tradição!

Feitas as despedidas daquele evento a Pippi ainda ficou para almoçar, porque bem feitas as contas outros habitantes há nesta terra perdida com quem vale a pena estar. Estavam lá pouco desses, mas sempre deu para pôr a conversa em dia.


Este conto é pura ficção e qualquer semelhança com outros contos não passa de uma mera coincidência.

5 comentários:

Anónimo disse...

Bela história de desencantar. As verdades às vezes têm estes efeitos. Pergunta-se apenas... Como teria sido o desenrolar da história se a Pipi tivesse sido elogiada antes de levar a estalada? Será que aí o elogio já seria recebido da maneira que seria de esperar? A bruxa não foi mesmo nada inteligente aqui! Como não o foi a Pipi pensando que elogios e repreensões estão ao alcance de um "Não, muito obrigada!"
Acima de tudo espera-se que a Pipi se deixe de histórias e cresça, porque vai haver muitas bruxas más por essa vida fora, que existirão apenas para que recorde esta outra bruxa que, quer a Pipi goste ou não, contribuiu, de uma maneira ou de outra, para aquilo que ela hoje é.

rddietrich disse...

Pippi traveled to Never Never Land and soon found out that it was really the land of the disenchanted. She expected to find an atmosphere of community and fraternity but encountered witches with warts and Captains with hooks instead of guiding hands. And so it goes in fairy tales . . .

Real life is a bit different because, although we do meet people who are unprofessional and unethical, as adults we know that these characteristics are unacceptable and people who display these traits are weak and threaten the integrity of the organization for which they work. When we begin to expect/accept a lack of excellence in our professional/personal lives, it is a sign that we too have lowered our standards. It is time for us all to learn something from Pippi, let each of us move forward and contribute to the making of a better workplace/world. The first step is throw off the cloak of anonymity and stand proudly by our convictions.

Ramona

Cristina Costa disse...

A pippi vai crescendo com esta e outras historias - tanto com aquelas que já foram como com as que ainda hão-de ser. Aprende com as decepções e as alegrias dos acontecimentos que vão marcando a sua existência. Agora o que a Pippi não fará eh cair nesse conformismo latino, cada vez mais marcante, e aceitar, sem mais ou sem explicação, o que não está bem. Nao são esses os valores em que acredita. E o que mais custou a Pippi presenciar foi a passividade e a indiferença de alguns, que sem qualquer brilho nos olhos, deixavam antever que já há muito tinham deixado de sonhar. Falta de objectivos? Sem vontade de escrever a própria historia? Indiferença face a um futuro minimamente garantido?
...não se sabe. A Pippi não chegou a perceber...


http://tinyurl.com/358fav

Anónimo disse...

O m&m que não é desta história...acredita só vale a pena derreter por um bom pedaço de amendoim...o resto é dar importância a mais a quem não merece!

Anónimo disse...

Engraçado, sempre gostei do Peter porque este não crescia. E da pipi, que embora pouco me lembre da sua história, lembra-me que era uma “não crescida” independente. E que, de vez em quando chorava o seu choro de criança, aquele que os adultos queriam chorar mas não são capazes devido à sua madureza.
Mas, na terra do nunca do meu Peter lá está o gancho. É por isso que não gosto d’ela? Não. Porque ela é muito mais do que ganchos. Esses andam por lá só para que haja acção, festas. E o que é a vida sem festas?
Se a pipi vai crescendo … que cresça. Mas, não muito. Que isso de crescer, muito, é uma seca.

PS
Provavelmente o gancho foi quem mais ordenou a bruxa.
Como certo é, que o gancho tem que defender os seus piratas.
Mas, o gancho no fundo até gosta do Peter.
Como certo é, que a pipi também faz algumas birras desnecessárias.
Tão desnecessárias como necessário foi, dizer à bruxa que há muitas maças. Podres.